Lorpa é um termo carinhoso, simpático, jovial e até mesmo honesto para descrever a forma de actuação da nossa banca no que toca ao financiamento das empresas, e de novos projectos empresariais.
Eu passo a explicar. O termo crise, por definição, significa dificuldade de alguma espécie.
Ora, na passada semana, o banco de Portugal vem dar a notícia fantástica, de que afinal não há crise; no crédito. O que há, é menos empréstimos porque estamos em recessão. Será piada? Onde é que está a câmara?. Parece que afinal o crédito ás empresas PÚBLICAS aumentou. O que a bem dizer faz sentido, porque em cima do “excelente” modelo de gestão que é apanágio dessas empresas – que têm mais quadros do que trabalhadores – está subjacente um maior desperdício. Até aqui tudo mal, mas o pior, é tentarem tapar o sol com a peneira, e dizerem que só há menos crédito porque as famílias estão a pedir menos crédito. Então e as empresas que têm dificuldades no recebimento, mas que todos os trimestres têm que “entregar” o IVA ao estado? Como é que pagam os salários? Como é que financiam novos produtos, uma eventual internacionalização?
Será que este vai ser o texto com mais pontos de interrogação que escrevi no blog?
Se não são parvos, andam a treinar 2 vezes ao dia no mínimo!
“O Banco de Portugal concorda com a avaliação da troika de que Portugal não está a sofrer uma asfixia de crédito capaz de comprometer a capacidade de relançar o crescimento económico.”
E a que taxa de juro? E com que garantias é que conseguimos financiamento?
Um exemplo prático que aconteceu comigo em Junho deste ano. Fiz um business plan, e no final, entre receitas e despesas, percebi que precisava de me financiar em cerca 60% junto da banca para conseguir por o projecto em marcha.
Fui ao banco. Devo dizer em abono da verdade que foi uma tarde bem divertida, não tivesse sido o resultado final:
Abandonei o projecto.
A razão é simples, foi-me pedido dois fiadores, e a hipoteca da casa, que já agora está avaliada em cerca de 5 vezes o montante que estava a pedir que não era muito. E isto meus caros faz todo o sentido, senão vejamos: além de criar o meu posto de trabalho, iria retirar das filas do fundo de desemprego, mais 3 pessoas que precisava para fazer funcionar a loja, além do valor em impostos gerado pelo valor acrescentado pelo negócio.
Ora, 4 trabalhadores x fundo de desemprego pago pelo estado + impostos = mais do que eu estava a pedir de crédito, E A PAGAR JUROS.
Isto para um projecto que me foi dito estar bem elaborado, com uma análise realista, e num ramo (distribuição alimentar) onde existem perspectivas de sucesso. Imaginem se não fosse!
Qual é o papel dos banco afinal?
Ficar com as casas e os negócios quando as coisas não correm bem?
Não faz sentido estar a barrar a criação de postos de trabalho, porque a pessoa não quer empenhar a casa. O que é que o banco vai fazer com a casa se o negócio correr mal? Leilões?
Para haver crédito tem que haver um projecto, tem que ser avaliado, discutido, acompanhado durante a execução. A própria criação do negócio será a garantia de retorno pela banca.
A única razão objectiva para conceder ou não crédito, é a viabilidade do próprio negócio, caso contrário são Lorpas.
Claro que isso dá muito mais trabalho e é preciso muito mais conhecimento técnico. Mas no fundo, é a melhor forma de garantir que no futuro as empresas, e em particular os jovens empresários, têm acesso a crédito. O risco não é maior! Dá é mais trabalho! Se não for para trabalhar, o que é que os senhores(as) dos banco estão lá a fazer? Exploarar? Extorquir? O quê?
A banca tem que fazer as coisas de forma diferente.
Acho que lhes damos demasiada importância.
Eles vendem um produto: dinheiro. E ainda por cima é indiferenciado, uma nota de 5€ é sempre uma nota de 5€. É assim que temos que os encarar, como um vendedor de produtos, e não como os Deuses do Olimpo que tudo podem, e quando fazem birra, banem alguém sabe-se lá para onde. Eles são como o supermercado, e nós, compramos onde é mais barato, salvo ruptura de stock.
